• 28set

    HÁ UM consenso cada vez maior da importância da participação dos pais na vida escolar de seus filhos. Os resultados extraídos da Prova Brasil mostram que essa participação pode contribuir para melhorar o desempenho escolar, como mostrou recentemente um estudo do Unicef. Por outro lado, essa participação é ainda muito tímida e os pais têm delegado às escolas a função da educação plena de seus filhos, o que é um grande equívoco.
    Há um sábio provérbio africano que diz: “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Sem a participação efetiva dos pais e de toda a sociedade, fica difícil acelerar o tempo para que a educação brasileira possa melhorar, de forma que crianças e jovens não apenas passem pela escola, mas, de fato, aprendam.
    Ao completar três anos de existência no último dia 6/9, o movimento Todos pela Educação já pode comemorar expressivas vitórias, graças ao trabalho em parceria com vários setores da sociedade.
    Por outro lado, o movimento sabe que ainda precisa colocar uma maior força na mobilização social pela causa da educação, o que não apenas irá refletir numa maior participação dos pais na educação dos filhos como também em tornar a educação a prioridade número um dos brasileiros.
    A última pesquisa, realizada pelo Ibope/CNI, em 2007, por solicitação do movimento, mostrou que a educação ocupa a sexta prioridade entre os brasileiros e que 72% dos pais estão satisfeitos com a qualidade da educação oferecida aos seus filhos.
    Isso é preocupante se levarmos em conta que, apesar dos avanços recentes, o Brasil, em comparação com países mais desenvolvidos, está muito distante quanto à aprendizagem de seus alunos, como revelam os resultados do Pisa.
    Em relação, à meta de aprendizagem do Todos pela Educação, por exemplo, só 23% dos alunos que concluem a quarta série do ensino fundamental 1 alcançaram o nível adequado de aprendizagem em matemática. Na oitava série do ensino fundamental 2, esse percentual cai para 14% e, ao final do ensino médio, chega a 10%.
    Para ter uma ideia do tamanho do desafio que teremos pela frente, a meta de aprendizagem para 2022 é de 70%! Portanto, se, por um lado, temos metas claras para melhorar a qualidade da educação brasileira, o que há tempos atrás seria difícil de imaginar, por outro lado, estamos muito distantes de oferecer uma educação de qualidade para nossos alunos.
    Em recente artigo, o professor José Pastore chamou a atenção para a baixa qualidade da educação brasileira como o principal entrave para que o país ocupe posição de destaque no ranking mundial da competitividade.
    Como envolver e sensibilizar os pais nessa importante tarefa não é algo simples, tratando-se de um país tão desigual entre suas regiões e de tamanho continental.
    Nesse contexto, vale salientar o papel das denominações religiosas, que, em parceria com o Ministério da Educação e o Todos pela Educação, têm contribuído para envolver as famílias e os pais no processo educacional.
    O tamanho continental do Brasil exige, por outro lado, o forte e decisivo envolvimento dos meios de comunicação. O projeto “No ar, Todos pela Educação”, em parceria com a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), contando com mais de 2.000 rádios em todo o país, vem também ajudando nesse processo de mobilização pela causa de uma educação de qualidade para todos os brasileiros.
    Cabe parabenizar a mais recente iniciativa da Rede Globo de Televisão, da Fundação Roberto Marinho e do Canal Futura pelo lançamento do Globo Educação, um programa semanal, aos sábados, divulgando as boas práticas educacionais realizadas por escolas públicas de todo o país.
    Outro belo exemplo da força dos meios de comunicação tem sido a mobilização realizada pelo movimento Educar para Crescer, da Editora Abril, em parceria com o Todos pela Educação, que lançou um conjunto de três cartilhas dirigidas aos pais e empresários com dicas para participar da vida escolar de seus filhos e melhorar a qualidade da educação.
    Neste momento em que o Todos pela Educação completa três anos de existência, estamos cientes dos avanços registrados no processo de mobilização social, mas precisamos avançar ainda mais pela causa da educação e, assim, legar às futuras gerações um Brasil mais justo e verdadeiramente independente. Sonhamos com esse país e acreditamos que é possível com a participação de todos.

    MILÚ VILLELA é membro fundador e coordenadora da Comissão de Articulação do movimento Todos pela Educação, embaixadora da Unesco e presidente do Faça Parte-Instituto Brasil Voluntário, do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e do Instituto Itaú Cultural. Via Folha

  • 14set

    JÁ ESTÁ incorporado ao pensamento empresarial contemporâneo o chamado tripé da sustentabilidade, que, da tradução do inglês, é formado pelas palavras pessoas, planeta e lucros. Em outros termos, trata-se das três dimensões -social, ambiental e econômica- que devem balizar a atuação de uma empresa para que ela exerça seu papel com responsabilidade e mereça a estima da sociedade. A dimensão social refere-se aos seus integrantes e às comunidades com as quais interage. Aos primeiros deve assegurar condições plenas de trabalho seguro, oportunidades de realização de planos de vida e carreira e o direito de partilhar os resultados que produzirem. Às comunidades deve oferecer a contribuição necessária à superação das carências que as afetam. Isso significa agir dentro e fora dos muros, apoiando e liderando iniciativas que promovam a inclusão social dos marginalizados pela pobreza, reconhecendo que tais ações têm como corolário a geração de novos consumidores de produtos e serviços. A segunda dimensão se traduz em consciência ambiental. A empresa deve mitigar o impacto que sua atividade porventura cause à natureza e ir além, participando do combate às ameaças que hoje rondam a humanidade. A terceira corresponde ao sucesso econômico da empresa. Ela tem de cumprir os compromissos inerentes à atividade produtiva e gerar resultados -sem os quais definha e deixa de existir. O retorno dos investimentos é precondição para a realização dos outros propósitos e de novos investimentos. Em nossa organização (a Odebrecht), não paramos por aí. Acrescentamos mais duas dimensões: a cultural e a política. Assim, são cinco as referências que nos guiam no rumo da sustentabilidade. No plano cultural, o foco é um modelo de integração que leva em conta a visão de mundo e os valores e crenças das pessoas a quem estamos servindo. A base de toda ação é o respeito à diversidade e a promoção do que distingue os vários grupos sociais. Já a dimensão política consiste na busca permanente de oportunidades de contribuição com as instituições governamentais, visando ao bem comum. Isso se dá, principalmente, no apoio à formulação de políticas públicas, para as quais nossa experiência multinacional e diversificada pode ser útil. Sobre esses pilares assenta-se a concepção que defendo de sustentabilidade, baseado na convicção de que o processo de produção de riquezas pelas organizações empresariais deve traduzir um compromisso moral com a resolução dos problemas que afligem nosso planeta e a humanidade.

    Emílio Odebrecht escreve aos domingos esta coluna na Folha

  • 06set

    HÁ ALGUMAS semanas, tratei aqui de um assunto que rendeu várias manifestações de leitores. No texto, sugeri que profissionais maduros já aposentados, curtidos por anos de trabalho em empresas privadas, pusessem a experiência que acumularam a serviço da coletividade.
    Dentre as mensagens que recebi, de profissionais e de empresários que já foram sucedidos em suas empresas, algumas pediam sugestões sobre como e o que fazer.
    Há vários modos. Colaborar com a administração da cidade ou mesmo do bairro onde se reside é um deles. Penso em urbanistas aposentados, contribuindo para que tantos espaços vazios que vemos por aí, entregues ao abandono pelos municípios, sejam transformados em áreas de convivência e embelezamento local -coisas que, havendo criatividade, sempre se consegue fazer com pouco dinheiro.
    Sei de executivos que estão dedicando tempo a treinar diretores e professores em técnicas de gestão -de pessoas, orçamentos, compras etc.- aplicáveis a escolas públicas.
    O Movimento Brasil Competitivo, uma organização privada, criada por importantes empresários brasileiros, tem dado contribuição relevante para a qualificação de administradores em ministérios, governos estaduais e prefeituras. Ao longo de uma vida profissional, em uma ou mais empresas, aprende-se muito sobre o valor do trabalho -e também sobre como fazer o trabalho criar valor, ou seja: de quais maneiras pode-se mudar para melhor o mundo que nos cerca através da ação produtiva coordenada e metódica. Parece banal, mas essa percepção anda escassa em muitos ambientes.
    Há também muito para ser feito para além da esfera estatal. Empresários aposentados podem, com pouco capital e boa disposição, criar pequenas oficinas profissionalizantes para formar jovens para a vida, pelo trabalho.
    É o que meu pai, Norberto Odebrecht, já perto dos 90 anos, vem fazendo em 14 municípios do Baixo Sul da Bahia, engajado nos programas da Fundação Odebrecht. Sua dedicação atual é a educação de moças e rapazes daquela região, de modo que encontrem ali as oportunidades que precisam para desenvolver os talentos que têm.
    Eu, desde que deixei minhas funções executivas, tenho me dedicado, entre outras coisas, a participar de um projeto na área de pesquisa científica, destinado à produção de drogas contra o câncer.
    Enfim, os exemplos existem e naquele artigo quis provocar quem chegou à terceira idade para um despertar de consciência: enquanto o ócio improdutivo deprime, uma boa causa nos mantém vivos e revigora.

    Emílio Odebrecht escreve aos domingos esta coluna na Folha.

  • 16ago

    PARECE QUE aquela sensação que vinha sendo murmurada aqui e ali, de forma meio tímida e insegura, nas últimas semanas, começa a tomar corpo: o pior já passou.
    É verdade que as manchetes que se arriscam a vaticinar que a inesperada crise mundial, que assombrou tanta gente, foi superada ainda não convencem todo mundo. Mas ninguém ignora as consequências que estão aí: muitos grupos importantes mudaram de dono; os setores produtivos da economia, onde está a riqueza real, foram valorizados (em detrimento dos setores especulativos); e há novas e bastante conservadoras regras para o funcionamento do sistema financeiro em muitos países.
    Há outras duas constatações obrigatórias. A primeira é que o Brasil se comportou muito bem. A segunda, é que o mundo reconheceu, durante a situação adversa, a nossa estabilidade econômica, a solidez do nosso sistema financeiro e os avanços no plano social, aspectos que foram realçados ao longo dos últimos meses como contraponto ao que alguns países viveram, com a forte retração de crédito, intervenções salvacionistas do Estado, desemprego, desesperança e medo.
    Governo e iniciativa privada estão sabendo levar a bom termo seus compromissos e suas responsabilidades. O primeiro, tomando as medidas necessárias à preservação da solidez da economia e à defesa do bem-estar coletivo. A segunda, procurando se ajustar às demandas trazidas pela conjuntura difícil.
    É certo que não saímos ilesos -mas não perdemos o rumo da construção de um país desenvolvido e socialmente justo.
    Por isso, agora que o horizonte se torna mais nítido, a pergunta que o Brasil deve responder é: o que nos pede a nova situação mundial?
    A resposta cabe a cada um de nós. Não recomendo a espera de uma resposta oficial, governamental, emitida por uma só voz.
    De minha parte, não tenho dúvidas: a prioridade é manter os investimentos -públicos e privados- e, pela educação, qualificar as pessoas, de modo a nos tornarmos cada vez mais aptos a conquistar, coletivamente, o que o futuro nos oferece.
    O que o futuro nos oferece são oportunidades. Essas oportunidades, que estão principalmente no exterior, impõem que haja também uma convicta determinação aqui dentro de criarmos no Brasil empresas robustas, capazes de alcançar patamares elevados de desempenho e resultados e de criar novos e mais desafiadores postos de trabalho, decididas a transformar a hora difícil em momento certo de conquistar mercados e exercer a liderança, como verdadeiras campeãs mundiais nos segmentos em que atuam.
    Emílio Odebrecht escreve aos domingos esta coluna na Folha

  • 14jun

    O BRASIL viveu nos últimos 15 anos um período de progresso. Faço esta afirmação com tranquilidade, convicto de que o nosso desenvolvimento pode ser medido pelas importantes transformações ocorridas na economia, na política, no domínio do conhecimento e na sociedade como um todo. Mas continuamos distantes da realização possível de nosso potencial.
    Dentre os setores onde carências importantes continuam evidentes, destaco a máquina pública, que precisa ser aperfeiçoada.
    É imperioso reconhecermos que nas últimas duas décadas a gestão estatal no país evoluiu. Mas faltam ao Estado brasileiro práticas de boa governança, tão comuns na iniciativa privada.
    Um Estado gerencialmente frágil não será capaz de autorreformar-se para atender às demandas cada vez mais complexas que o mundo impõe a quem almeja exercer papel relevante entre as nações.
    Ocorre que a ausência das reformas necessárias pode transformar-se em poderoso obstáculo na caminhada rumo ao futuro.
    Para melhorarmos, estou certo de que precisamos que os melhores dentre nós ajudem nas diversas esferas de governo, porque uma nação só avança se os seus filhos mais brilhantes se dispuserem a liderá-la. E há uma forma de contribuição que está além da política.
    Penso na possibilidade de profissionais maduros, que já deixaram a iniciativa privada, atuarem no setor público, capacitando pessoas e equipes, inserindo novas tecnologias, estabelecendo elevados padrões de atendimento à população. Já temos alguns exemplos, raros, mas importantes.
    Como fruto de uma ação estruturada, empresários e executivos bem-sucedidos que chegaram à terceira idade podem contribuir com governos, sem necessariamente terem “cargos” para isso.
    Sabem planejar para o longo prazo e podem levar para o serviço público uma visão de geração, que transcende a próxima eleição. Aprenderam a atuar na linha que liga o acionista ao cliente -figuras que, no âmbito da sociedade, se fundem no cidadão pagador de impostos, que exerce, de fato e de direito, os dois papéis, e podem influenciar na educação dos jovens que optaram pela carreira no serviço público.
    Indiretamente, estariam contribuindo com suas empresas de origem, hoje lideradas por seus sucessores, que, tendo assumido de direito e de fato a responsabilidade pelas decisões da organização empresarial, passariam a contar com uma administração pública à altura dos desafios do Brasil, cujo crescimento está atrelado ao crescimento e ao desenvolvimento da sociedade e dos seus agentes produtivos. Emílio Odebrecht escreve esta coluna aos domingos. Via Folha

  • 07jun

    O Brasil já há algum tempo assiste a um verdadeiro êxodo rumo aos grandes centros urbanos. Multidões deixam pequenas cidades e o campo movidas pela falta de perspectivas, de um lado, e pela esperança de oportunidades de uma vida melhor, do outro. Mas o que encontram, quase sempre, são metrópoles inchadas e inóspitas, que transformam os forasteiros em exilados no próprio país. A fixação das pessoas em seus locais de origem é um tema presente sempre que se discute o futuro do Brasil, mas não temos sido eficazes na interiorização do desenvolvimento. A ação social que a Fundação Odebrecht - instituição sem fins lucrativos mantida pela Organização Odebrecht - desenvolve no Baixo Sul da Bahia, com concentração pessoal e dedicação de Norberto Odebrecht, presidente de seu Conselho de Curadores, nos traz algumas importantes lições. A primeira é que qualquer comunidade, por mais pobre que seja, dispõe de quatro capitais: o humano, formado pela gente que ali vive; o social, que são o conhecimento que aquele grupo acumula e as relações entre os que dele fazem parte; o ambiental, formado pelos recursos naturais ali existentes; e o produtivo, que é a combinação dos três anteriores para a geração das riquezas necessárias à sobrevivência digna de todos, potencializando as vocações locais. A educação é o meio para desatar as forças da comunidade e capacitá-la para articular os capitais na busca do crescimento com desenvolvimento. A segunda é que o foco deve ser na família, para que funcione como uma âncora para o indivíduo, tendo como referência o jovem preparado para ser um agente ativo no processo de transformação da realidade local. A terceira é que a geração de riquezas deve se dar a partir da estruturação de cadeias produtivas para as quais a região tenha vocação clara. Os produtores se reúnem em cooperativas e os jovens são educados em casas familiares. As casas familiares são instituições profissionalizantes que adotam uma pedagogia de alternância: os alunos passam uma semana na escola, em regime de internato, estudando em período integral, e duas em casa, ajudando os pais e aplicando os conhecimentos adquiridos. E, finalmente, a mais importante das lições é que as pessoas preferem viver no lugar onde nasceram se têm saúde, educação, cultura, lazer e oportunidades de trabalho em quantidade, com qualidade. No Baixo Sul da Bahia isso tem se mostrado suficiente para promover profunda alteração no estado de espírito de quem sempre foi vítima de um esquecimento secular. Emílio Odebrecht escreve aos domingos esta coluna. Via Folha

  • 14mai

    Lançado esta semana pelo Cenpec, o Caderno: “Escola, Família e Comunidade” traz artigos, pesquisas e relatos sobre as possibilidades de participação social na Educação. O Cenpec - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, em parceria com a Fundação Tide Setubal, lançou nesta terça-feira, 12/05, o Caderno: “Escola, Família e Comunidade”. A publicação traz artigos, pesquisas e relatos que exploram a relação entre escola e família, com seus pressupostos, avanços e desafios, dentro da perspectiva de ampliação da aprendizagem das crianças, adolescentes e jovens das escolas públicas. Entre os textos disponíveis na publicação, destaca-se a pesquisa “Os pais e a qualidade da escola pública”, realizada pelo Instituto Fernand Braudel, que buscou identificar como as famílias da cidade de São Paulo vêem a escola e a Educação de seus filhos. Segundo Maria Alice Setubal (foto), presidente do conselho administrativo do Cenpec e da Fundação Tide Setubal, ao contrário de outras pesquisas realizadas sobre o tema, o estudo do Instituto Fernand Braudel revela que os pais se preocupam com o aprendizado dos filhos. “As famílias esperam que seus filhos tenham bons professores”, explica. De acordo com a pesquisa, o principal atributo de um bom professor, apontado por 31% dos pais, é que saiba explicar de forma que todos entendam. Via Todos Pela Educação

  • 10mai

    POR VOLTA DE de 1860, o engenheiro Emil Odebrecht, bisavô de meu pai, percorria Santa Catarina demarcando terras para os colonos alemães que chegavam à região.
    Ele tinha um hábito: sempre que uma planta, pela beleza, raridade ou utilidade, lhe chamava a atenção, colhia mudas ou sementes e as plantava no terreno de sua casa, na então colônia Blumenau. Hoje, ali há um bonito parque.
    Aquele parque me veio à lembrança ao pensar sobre como nossas crianças estão se afastando da natureza e sobre as perdas que isso lhes traz. No passado, através da vida ao ar livre, os jovens desenvolviam serenidade, paciência, capacidade de observação, tenacidade, saúde e vigor físico.
    Hoje, meninas e meninos gastam horas a fio diante de TVs e telas de computador. Com isso, têm acesso a um mundo de conhecimento até pouco tempo inimaginável. Mas, me pergunto, quais características estarão desenvolvendo?
    A tecnologia da informação é uma conquista da humanidade. Porém a maneira como alguns adolescentes dedicam sua existência aos videogames e à internet só pode lhes ser prejudicial.
    Há estudos que demonstram que, com tal conduta, estão mais propensos à obesidade e ao tabagismo. Mas não é só. A personalidade também pode sofrer danos. Ansiedade, hiperatividade, perda de sensibilidade humana igualmente podem acometer os viciados no mundo virtual.
    Recente pesquisa apontou que crianças brasileiras gastam perto de 20 horas mensais na internet. Meninos e meninas de 2 a 11 anos já representam quase 11% do total de usuários no país. Não me parece saudável. Por outro lado, bosques como o deixado por Emil Odebrecht são cada vez menos visitados pelos jovens, entretidos que estão com diversões eletrônicas.
    Com equilíbrio, o mundo virtual e o mundo real vinculado à natureza podem ser complementares, prevenindo deformações.
    Fato grave e pouco notado é que a falta de experiências ao ar livre por parte das crianças poderá fazer com que elas não cuidem do meio ambiente quando adultas. Por que defenderão algo que não conheceram bem? Conhecer a natureza não é tão difícil. Ela está nas montanhas e nas florestas, mas igualmente está em uma rua bem arborizada ou no pátio da escola.
    Nós, adultos, somos culpados por esse distanciamento entre os jovens, as árvores, animais e rios, porque estamos permitindo e sendo coniventes.
    O prazer de desfrutar a natureza pode ser aprendido, com efeitos diretos sobre o bem-estar físico e mental das novas gerações. Faz todo sentido, portanto, mudarmos de atitude. Emílio Odebrecht escreve aos domingos esta coluna. Via Folha

  • 08abr

    Os economistas têm, em geral, uma visão reducionista e instrumental da Educação. Consideram-na um fator de produção, ou melhor, um atributo que melhora a qualidade do fator de produção original, o trabalho. Nas famosas funções de produção, poderosas ferramentas didáticas que, infelizmente, só existem como entes platônicos no velho quadro-negro e sobrevivem nas modernas projeções do PowerPoint nas salas de aula, o fator trabalho é qualificado com o nível de Educação.
    Frequentemente calcula-se o produto potencial ao se parametrizar alguma função de produção com essa variável, para estimar o hiato do produto, com o qual se constrói a política monetária “científica”. (…) Retomando o fio da meada, claro que o nível de Educação é fundamental para o processo de desenvolvimento econômico, mas que entre eles há estímulos recíprocos. Isso coloca um problema grave para a mensuração estatística da taxa de retorno dos investimentos em Educação, o que tem estimulado a pesquisa sobre a questão. Aos poucos, a tenacidade e a competência dos pesquisadores esclarecem o assunto e sugerem a formulação de melhores políticas públicas.
    A importância da Educação e a incorporação do estoque de conhecimento construído ao longo da história transcendem em muito o seu papel simultâneo de causa e efeito do processo de desenvolvimento econômico. Eles foram os fatores que transformaram o animal-homem no Homo Sapiens Sapiens que hoje tem a pretensão de ser. Deram-lhe não apenas a humanidade, mas também o problema infernal de tentar entender: “Por que está no mundo?” Permitiram a sua reconciliação com a realidade externa, abrindo-lhe as portas para expor suas potencialidades.
    Na sua longa história, o homem foi descobrindo uma forma de organização social capaz de acomodar razoavelmente a eficiência produtiva, necessária à sobrevivência material, com a liberdade de iniciativa, necessária à sua realização. Trata-se da economia de mercado, mais conhecida como capitalismo. Felizmente, não é nem natural nem imortal. Quando utilizada, exige uma feroz competição, uma corrida que, para ter alguma moralidade (coisa que o Sapiens Sapiens aprecia e parece ter inventado em suas horas de ócio), precisa da igualdade de oportunidade para todos na partida. O ponto de chegada de cada um na corrida depende da loteria genética e do lar onde nasceu, o que torna cada um duplamente diferente de todos os outros.
    Um dos papéis fundamentais do Estado nesse tipo de organização produtiva é justamente tentar reduzir aquelas diferenças. Quanto à loteria genética, nada se pode fazer (ao menos por enquanto), mas, quanto à igualdade de oportunidade no ponto de partida, há muito. Uma descoberta empírica fundamental é que a excelência na Educação básica pode compensar e reduzir os diferenciais de habilidade e talento da loteria genética. O grande paradoxo brasileiro é exatamente este: temos pequenas ilhas de excelência científica, cercadas pelo oceano de um dos piores ensinos básicos do mundo. Até agora nem usamos o primeiro para acelerar o desenvolvimento nem melhoramos dramaticamente o segundo para dar maior equidade e moralidade à nossa organização produtiva. A boa notícia é que estamos acordando para o problema. Via Carta Capital

  • 24mar

    AS MUDANÇAS que vêm ocorrendo na rede estadual de Educação de São Paulo são promissoras. Pelo menos três das cinco condições necessárias para fazer uma Escola funcionar estão em andamento: o programa de ensino, a avaliação calcada nesse programa e um sistema de incentivos baseado no desempenho. As outras duas que faltam são talvez as mais espinhosas, e ambas se circunscrevem ao âmbito da autonomia: a do diretor -especialmente a autonomia administrativa- e a pedagógica, que esbarra, por sua vez, na formação básica do professor. Uma verdadeira reforma da Educação precisa de vários ingredientes. Um deles é a resolução do pacto federativo, com a municipalização do ensino infantil e fundamental e a responsabilização dos municípios. Outro ingrediente é tornar o magistério atrativo para os melhores alunos que saem do ensino médio ou da faculdade. Nos países desenvolvidos, os candidatos estão entre os 25% melhores do ensino médio; no Brasil, entre os 15% piores no Enem. Mudar essa realidade requer políticas diferenciadas de carreira e planos de migração -assunto politicamente delicado. Acesse www.folha.com.br e leia o artigo na íntegra.